Primeiras palavras

Sabe aquela sensação ruim de que nada muda e você simplesmente fica repetindo um padrão? Um padrão que, aparentemente, não vem acrescentando nada à sua vida?

Pois é.

Esse ano isso não aconteceu.

Uma das nossas histórias começa no mais recente HQMix. A revista Sandman ganhou o prêmio de melhor revista de terror e, na premiação, não apareceu ninguém da editora para receber o prêmio. Estranhamente, um garoto, não mais do que um fã, levou o prêmio embora e eu fiquei me perguntando se eu deveria ter me oferecido para pegar o prêmio e, na maior cara de pau, levar a estatueta dourada dos persoagens do Henfil diretamente para o Neil Gaiman na convenção de San Diego.

Não, eu não teria a cara de pau de fazer isso no HQMix.

No HQmix.

Somente no trem que estava nos levando de Los Angeles até San Diego é que percebi o quão surreal era a situação: lá estava eu, segurando um troféu que já viajava fazia dois dias na minha mão - logo aprendi que ele era muito frágil para colocar na mochila - esperando a minha chance de encontrar o escritor dos sonhos de todo quadrinhista, aquele que cria suas histórias, escreve quadrinhos e é levado a sério por isso.

Até aquele ponto da viagem, o troféu ditava nossas escolhas. Pegamos um taxi da estação de trem até o albergue devido à sua fragilidade, guardamos o troféu e todas as nossas coisas no quarto de tal modo que, não importa a zona do quarto - e o nosso quarto parecia o inferno no primeiro dia em que chegamos - ninguém conseguiria danificar a estatueta. Até ficamos fazendo hora dentro do quarto, com medo de deixar o troféu sozinho com nossos outros quatro companheiros de quarto. E foi durante esse tempo que checamos no cronograma da convenção todas as palestras e mesas redondas procurando o melhor horário para fazer nossa entrega.

Um horário foi escolhido e nossa missão se tornou mais clara.

No início do ano, Neil Gaiman dirigiu seu primeiro curta-metragem, entitulado "A short film about John Bolton". No primeiro dia da convenção, na última palestra do dia, ele iria apresentar seu filme pronto pela primeira vez para uma platéia. Nós iríamos de qualquer jeito, mas antes passamos no albergue por volta das cinco da tarde e pegamos o HQMix. Quando chegou a hora da apresentação, estávamos logo na primeira fileira. Não demorou muito para que a sala ficasse cheia. Pouco depois, ligeiramente apressado, ele chegou e se dirigiu ao grupo de pessoas que parecia encarregado de operar o projetor. Era o momento de agir.

Me aproximei segurando o troféu e logo uma moça simpática disse, enfática:

-Ele não vai assinar nada agora.

-Não, eu não quero que ele assine nada. Eu vim do Brasil para entregar esse troféu a ele. - eu respondi.

-Meu Deus. Foi você que mandou a carta que o Neil Gaiman publicou no blog dele?

momento da explicação: Depois do HQMix, eu escrevi para o Neil Gaiman falando sobre a minha vontade de ter lhe levar o troféu. Como ele publicou minha carta, ponderando sobre o paradeiro de todos os seus outros prêmios ganhos no Brasil, o garoto que levou o troféu me contatou para que eu cumprisse o que havia insinuado na carta. Com uma condição: Tire uma foto com o Neil Gaiman segurando o troféu

Aparentemente, não foi somente a moça simpática que lembrou da minha carta, e o próprio Neil Gaiman ficou muito emocionado quando me viu segurando o troféu e eu lhe contei o que era.

-Mas tem um pequeno detalhe... - eu comecei.

-Você quer uma foto? - ele perguntou.

Acenei positivamente com a cabeça. O Bá já estava com a câmera posicionada.

-Então, vamos lá! - disse então um Neil Gaiman que logo assumiu poses quase heróicas em frente à câmera.

Tiramos duas fotos, só para garantir. O agradecimento foi breve, de ambos os lados, e ele seguiu seu caminho em direção ao palco para apresentar seu primeiro filme para as muitas pessoas que, como nós, estavam lá.

Mas nós não estávamos mais lá. Eu, ao menos, não estava.

Eu estava nas nuvens.

Lições que aprendemos em convenções, mostrando o nosso trabalho, ouvindo palestras e conversando com artistas:

-Portfolio
Em primeiro lugar, só tenha o seu melhor. Se você acha que alguma das páginas que você levou não está boa, mas queria um volume de trabalho na pasta, pode mudar de idéia e tirar as páginas ruins. O importante é mostrar o que você tem de melhor, mesmo que sejam duas páginas. E se você tem só duas páginas boas, você precisa se esforçar mais para, quem sabe da próxima vez, ter mais páginas.

As filas para os portfolio reviews são parte do aprendizado do desenhista. Mas saiba já: ninguém é contratado por um editor em portfolio reviews, mesmo que o trabalho seja muito bom. Eles podem até te dar um cartão e pedir mais trabalho, mas o mais importante para você é a chance de ter alguém (um editor, que é quem contrata os desenhistas) falando o que funciona ou não no seu trabalho, como seu trabalho se encaixa ou não na linha de gibis desse editor e o que você pode e deve fazer para melhorar. Nós demoramos uns dois anos para perceber que não iríamos conseguir um emprego desse jeito.

Na verdade, quase conseguimos, mas esse emprego veio na forma de dois senhores, editores de uma empresa que estava começando, que olhavam o portfolio das pessoas que estavam esperando na fila para a Dark Horse, antes do pessoal da Dark Horse chegar. Eles estavam desesperados por desenhistas e chegaram a mandar vários e-mail nos oferecendo trabalho. No final das contas, a história era péssima e o dinheiro não era nada bom e nós não nos interessamos.

Mas então por que um artista vai à convenção se ele não vai arranjar trabalho??

-Seja persistente
Você deve trabalhar para você mesmo quando não tem trabalho. Desse jeito, sempre está melhorando e, quando encontrar um editor, ele vê que você esteve trabalhando pelo progresso das suas páginas. Aí, como já dissemos, ele te dá um cartão e pede mais trabalho. MANDE MAIS TRABALHO. Mande cartas ou e-mails para esse editor todo mês, mostrando seu novo trabalho e perguntando sobre oportunidades de trabalho. Para que isso aconteça, é essencial que você esteja produzindo constantemente, pois é isso que um quadrinhista profissional faz, desenha o tempo todo. Se você quer ser um artista, deve se comportar como tal.

Você vai à convenção para que conheça pessoas. E para que elas conheçam você. Você deixa de ser aquele nome que vem abaixo das páginas de xerox que você manda pelo correio e passa a ser alguém que se comporta como um quadrinhista e tem o trabalho para mostrar. Mas não adianta nada fazer contatos na convenção e só voltar a entrar em contato no próximo ano, na próxima convenção. Assim, você vai demorar sete anos para ter a sua chance. Ou mais.

-Saiba o que você quer
Você quer ser o cara que faz o lápis? Arte-finalista? Colorista? Quer fazer tudo? Ou para você tanto faz?

Tem gente que leva no portfolio um pouco de tudo o que sabe fazer, e isso não é bom, pois não diz o que você quer fazer. Se você acha que qualquer trabalho está bom, você passa a impressão de que não sabe o que quer e não transmite segurança ao editor. Saiba o que quer e corra atrás disso.

-Artistas
Mostre também o seu trabalho para artistas famosos. Ou mesmo os não tão famosos que você admira e são muito mais acessíveis do que os muito famosos. Eles adoram, acima de tudo, um bom trabalho. Se seu trabalho for bom, será bom ouvir isso de alguém que você respeita. E mantenha contato com eles (não precisam ser muitos).
Você nunca sabe quando um artista que você conhece vai falar sobre o seu trabalho com um editor que ele conhece, ou quando um artista vai olhar para o seu trabalho e vai te mandar para falar com tal editor em tal editora. Faz toda a diferença do mundo mostrar o trabalho para um editor porque você foi indicado por um artista, ao invés de esperar na fila do portfolio review.