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| Ó do Borogodó às sete horas da tarde, numa tarde que de tarde não tinha mais nada. Por um lado, pois já estava escuro e, por outro, porque ainda era cedo. Cedo para a noite que nos esperava, cedo para o grupo de samba que ali se apresenta todo Domingo, mas justamente cedo o suficiente para conseguirmos uma mesa naquela que sempre foi a noite mais agitada do bar. E nós precisávamos de uma mesa pois, dentro em breve, teríamos companhia. |
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Ele chegou às oito e meia. Talvez um pouco mais tarde. Por pouco, não chegou tarde demais. O bar tem uma política de limitar o número de frequentadores em cento e cinquenta. Após atingido esse número, ninguém mais entra sem que alguém saia, e o Ó do Borogodó aos domingos é uma rua de uma mão só: todo mundo entra e ninguém quer sair mais. Sendo assim, depois de preenchida a capacidade do bar, perca as esperanças. Quando percebemos que o bar já estava bem cheio de gente, fomos ao porteiro e informamos que um amigo estava pra chegar. -Já fechou - ele disse. Explicamos e situação, nosso amigo vinha da Argentina e hoje era sua última noite. Nada adiantou. Era preciso falar com a dona do Bar. Ainda mais porque o nosso amigo acabara de aparecer na entrada. O Bá, grande embaixador em assuntos pertinentes a persuasão das mulheres, foi ter com a dona. Era preciso que nosso amigo pudesse entrar - ele e o Ivan, que vinha na função de guia local, chofer e fã. Quem conhece o Bá sabe que ele não falha e, convenhamos (e a dona do bar também concordou conosco), não é todo dia que podemos levar o Eduardo Risso para ouvir um bom samba. Já dentro do bar, com a banda começando timidamente sua primeira entrada, nos sentamos. Na mesa, as primeiras de muitas garrafas de cerveja já vazias pela espera, se amontoavam junto aos nossos cadernos de rascunho. A música chamava nossa atenção, assim como as garotas que sambavam sensualmente na nossa frente. Eduardo olhou para os lados e se viu rodeado de belas e jovens mulheres e, sorrindo, nos disse: -Não foi somente pelo samba que vocês escolheram esse lugar. Rimos. Virando-se para Ivan, como que para avisá-lo, Eduardo completou, apontando para os cadernos: -As Mulheres adoram os artistas - e sorriu uma vez mais, a que Ivan também sorriu, captando rapidamente a mensagem. Nos delonguemos por um parágrafo para falar um pouco mais sobre Ivan. Sujeito simpático, prestativo, sempre atento às conversas - e a tudo mais à sua volta - mas, acima de tudo, um grande fã de quadrinhos. Provavelmente, o maior que já conheci. Além de leitor assíduo de quase todo o material produzido, mantém contato com vários artistas e escritores, escrevendo-lhes cartas, mandando pacotes com revistas a serem assinadas, sempre curioso por aqueles pormenores que todo autor, em seu próprio momento de fã, põe no trabalho para que os leitores identifiquem. Dizem que, ao se apresentar num palco, seja cantando, atuando ou fazendo uma palestra, você deve encontrar alguém na platéia que esteja prestando atenção e direcionar-se para ele enquanto executa sua função. Se existe algum tipo de paralelo a isso na indústria dos quadrinhos, o Ivan com certeza estará lá, na platéia. Muito antes de entrarmos em contato com Eduardo para nos encontrarmos em São Paulo, um jantar entre o grande artista e o grande fã já estava combinado. Nós aproveitamos a oportunidade e nos juntamos ao acontecimento. E, de quebra, sugerimos o lugar. De volta ao bar. De volta a o que nos levou a falar com o Eduardo há dois meses atrás, na convenção em San Diego: quadrinhos. Finalmente, estávamos todos reunidos para falar de quadrinhos, mostrar o nosso trabalho e ouvir sábios conselhos de quem tem muitos anos de estrada. |
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-É muito importante saber usar a imagem no quadrinho e compor a imagem na página. - disse Eduardo, enquanto elogiava as páginas que levamos para ele. - O mais importante para o desenhista é o storytelling, e muitos artistas de hoje não tem um bom storytelling. - Nesse aspecto, concordamos todos. Para exemplificar seu ponto, Eduardo citou Frank Miller, dizendo que Miller era um tremendo contador de histórias e que qualquer falha em seu desenho era supérfula devido a sua grande habilidade de contar uma história e de colocá-la no papel. Assim como Miller, o artista deve usar o preto e branco para direcionar o olhar do leitor pela página, pela história. Mike Mignola também impressiona o artista argentino, pelo modo muito particular com que conta suas histórias, e também pelo forte uso e domínio do preto e branco. |
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Nos quadrinhos, cada um tem a sua função, e é importante que todos saibam desempenhar bem a sua função sem perder de vista que estão fazendo uma história em quadrinhos. O desenhista deve contar a história o melhor possível com as imagens. É preciso que você não dependa dos textos pra entender a história, tendo a imagem e o texto como complementos. Do mesmo modo, o roteirista precisa saber como escrever uma história que será transformada em quadrinhos, precisa deixar espaço para o desenhista criar o visual. Dizendo isso, Eduardo se disse sortudo de ter trabalhado com bons roteiristas, e se desdobrou em elogios sobre Brian Azzarelo. Seus roteiros, segundo Eduardo, são muito inteligentes e, acima de tudo, imprevisíveis. Mesmo para o desenhista, é sempre bom ler um roteiro que, página a página, você não sabe o que vai acontecer a seguir, e o Brian faz isso muito bem. -Eu sempre tive curiosidade - irrompeu Ivan, em uma de suas poucas interrupções - em saber como são os roteiros do Brian para o 100 Balas. O Alan Moore, todo mundo sabe, escreve roteiros detalhadíssimos. E o Brian? Eduardo colocou o copo de cerveja na mesa e ficou sério, pois o fã chamava. Mesmo sério, continuou sorrindo. -O Brian sabe muito bem o que quer na sua história. - disse. -Ele é muito inteligente, muito sensível, e ele coloca tudo isso no roteiro. Ao mesmo tempo, ele já me conhece e já sabe como eu trabalho, então hoje em dia seus roteiros são muito mais abertos. Ës vezes, ele só diz brevemente o que vai acontecer na página, dá os diálogos e deixa a composição e os detalhes pra mim. Enquanto continuava olhando para o nosso trabalho - e o que ele viu foi a história Tarde para Café que saiu no FRONT 9 (publicado pela Via Lettera) e outras histórias ainda inéditas (porque os artistas devem ter suas regalias) -, o Bá lhe perguntou: -E as cores? Você não acha que muda muito fazer o trabalho em preto e branco e, quando vem impresso, está colorido? - pensou um pouco e complementou - Como é, para você, não ter o controle dessa parte do processo artístico? -Você nunca sabe - começou Eduardo. -A cor deve realçar o desenho, não atrapalhar. Uma cor que não é boa pode estragar o desenho, mas uma boa cor pode salvar um desenho mediano. Tentando compartilhar nossas experiências, falamos um pouco do processo do ROLAND, a mini-série que eu e o Bá fizemos nos Estados Unidos, que foi nossa única experiência com outra pessoa colorindo nosso trabalho. É como se tivesse um contato inicial de reconhecimento até que a cor se adeque ao desenho. Para Eduardo, a satisfação em relação ˆs cores não veio logo. -Eu não gostei muito das cores do primeiro número do 100 Balas. - disse. - O (Grant) Goleash exagerou muito. As cores ficaram muito fortes e isso atrapalhou o desenho. - Segundo o que disse depois, para ele a Patricia Mulvilhill, colorista atual da revista, está fazendo um ótimo trabalho. Conversamos um pouco sobre as capas do Dave Johnson, as quais o Eduardo disse que, no conjunto, criam uma cara para a revista muito forte, uma identidade visual que todo mundo no mundo dos quadrinhos já conhece. Ele mesmo não gosta de fazer capas, então tanto melhor. Aliás, o que ele quer é SOMENTE desenhar histórias em quadrinhos. Eduardo se considera um desenhista, e não tem nenhuma pretenção de escrever suas próprias histórias. O interesse está em trabalhar com bons roteiristas e contar boas histórias. Não quer fazer milhões de projetos ao mesmo tempo, só para ganhar mais dinheiro. Ele acha importante se concentrar primeiro em terminar todos os números do 100 Balas - e isso siginifica provavelmente ir até o número 100 - antes de assumir novos compromissos. Como um artista internacional, Eduardo nos falou da importância de um editor no mercado de quadrinhos. Para ele, uma das razões das publicações argentinas de quadrinhos terem diminuido é a falta de editores de quadrinhos que, mais do que publicar o seu trabalho, estão lá para te dizer o que seu trabalho tem de errado e onde ele vai melhorar. Dissemos que a situação aqui no Brasil não é muito diferente, principalmente quanto ao papel do editor no crescimento do trabalho do quadrinhista. Então, Eduardo disse que foi com os editores que ele aprendeu mais durante sua carreira. Um bom editor conhece os dois lados do mundo dos quadrinhos, buscando o que há de melhor no artista e direcionando esse trabalho para o que funciona no mercado. -Se você é um artista independente que se auto-publica, você tem toda a liberdade do mundo e pode fazer o que quiser, mas não tem ninguém para te falar o que você está fazendo de errado, onde você não está conseguindo transmitir o que tem a dizer. - disse Eduardo. Mas não basta somente o editor gostar do seu trabalho, disse também. Durante as convenções de quadrinhos em San Diego, Eduardo viu muitos artistas mostrarem trabalho para os editores, e o trabalho era de altíssima qualidade. Entretanto, o processo editorial dos quadrinhos americanos, o nível de pressão que é posto em cima do artista, os prazos, a mentalidade de fazer parte de um grande sistema de produção, tudo isso torna o trabalho do desenhista muito difícil. Mesmo que você faça as páginas que o editor queira, você precisa conseguir entrar na máquina. E entrar na máquina mantendo sua criatividade e força expressiva não é para qualquer um. Sobre um editor em especial, Eduardo nos falou sobre como o Axel Alonso se destacava dos outros editores com quem tinha trabalhado, como tinha uma sensibilidade diferenciada do que você está acostumado a esperar dos americanos. Ele vê onde seu trabalho pode chegar e o ajuda a chegar lá. Para quem não sabe, Alonzo foi o editor original de 100 Balas e hoje ele trabalha para a Marvel, sendo o responsável por vários dos títulos da editora que estão fazendo sucesso atualmente. |
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Em algum momento durante a conversa, levantamos da mesa. Com todo aquele samba tocando, simplesmente não dava pra ficar sentado. Com nossos copos de cerveja na mão, nos rendemos ao ritmo da música. A paisagem feminina ajudava. Pegamos a câmera para não deixar de registrar esse encontro. Como estávamos num dos muitos cantos do bar, havia um lado em que não se via as várias mulheres que sambavam, rebolavam e sorriam para nós. Eduardo apontou para essa direção mais desolada e disse: -Vamos tirar a foto daqui pra lá. Rimos. Ele disse que, antes de viajar, pensou em trazer ele mesmo uma câmera, mas pensou que, se mostrasse fotos de um lugar como esse para sua mulher, com toda essa cerveja e todas essas mulheres, ela nunca teria acreditado que ele viajou a trabalho. Explodimos em gargalhadas e tivemos a certeza de que ele estava aproveitando sua estada no Ó. Falamos um pouco então sobre isso. Sobre como é importante ter uma vida para que o seu trabalho tenha uma vida. Entrar em contato com leitores, com outros artistas, com outras culturas, tudo isso ajuda e acrescenta ao trabalho. Eduardo disse que essa é uma das razões pelas quais ele viaja. Outra é porque ele consegue viajar sem atrapalhar seu ritmo de trabalho. Se atrapalhasse, não viajaria tanto. Eu e o Bá falamos sobre nossos 10 Pãezinhos e sobre como esse contato com as pessoas sempre foi importante para as nossas histórias e para que nossas histórias atingíssem um público que não fosse somente de leitores de quadrinhos. Quando você coloca na história lugares e situações com as quais os leitores podem se identificar, isso chama sua atenção e dá um aspecto mais sincero e verdadeiro às histórias que você está contando. Mandioca frita e frango a passarinho rechearam nossos estômagos bêbados. Eduardo continua firme, mesmo depois de ter passado a tarde inteira bebendo cachaça antes de chegar no bar. Se estava bêbado, não demonstrava, a não ser pelo constante sorriso que não lhe abandonava o rosto. Mas a música era boa, as mulheres eram bonitas e a cerveja estava gelada. Não havia razão para não sorrir. Ao som de Chico Buarque, nossa conversa estava chegando ao fim. Eduardo tinha seu vôo de volta para a Argentina às déz horas da manhã do dia seguinte. |
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Ivan iria levar Eduardo de volta ao hotel. Nos despedimos, pois eu e o Bá ainda ficaríamos por mais algumas horas, para colocar em dia o papo com várias garotas que, durante toda a noite, repararam nos nossos cadernos de desenho e queriam saber mais sobre aqueles artistas que tentavam impressioná-las. Antes do Eduardo deixar o bar, perguntei se, no próximo número de 100 Balas, poderia esperar muitas mulheres brasileiras desenhadas no cenário. -O rosto, eu tenho que manter os que já faço. Mas do pescoço para baixo... |
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© e ™ 2002 10 Pãezinhos Para os interessados em ler mais coisas nossas, visite o nosso blog, Os Loucos Underground, ou visite o nosso site (que tem, na página inicial, por tempo limitado, uma foto nossa com o Eduardo Risso). |